Visualizações de página do mês passado

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

RAPIDINHA!!!

Tá combinado

Naquele dia Cláudio não fez o habitual. Desistiu de tomar o banho de mais de meia hora, ignorou o café da manhã e seguiu para o trabalho como se o mundo não pudesse esperar por ele mais dez minutos.
Sua afobação na chegada ao escritório chamou a atenção do pessoal. Em cinco anos naquela empresa nunca tinha chegado tão cedo e muito menos tão bem disposto:
—    O que foi que aconteceu, Cláudio? Caiu da cama, teve pesadelos ou chegou adiantado para o dia seguinte? — Ironizou Rui, seu colega de baia.
—    Não sei explicar! O que posso te dizer é que hoje quem acordou o galo da rua fui eu!
—    Assim, do nada?
—    A impressão que tenho é que algo grande está pra acontecer e há de ser hoje! Mas deixe isso para depois, deve ser bobagem… Temos muito a fazer!
E de fato tinham, aliás… Teriam se não acontecesse algo ainda mais estranho. Joelmir, o sujeito que prestava atendimento nas concessionárias da fábrica teve um mal estar súbito e morreu. Não chegara nem aos quarenta, o pobre coitado.
Imediatamente após a viúva avisar sobre o ocorrido, iniciou-se uma discussão para saber quem cumpriria a agenda do recém falecido.
Mesmo distante do atendimento, apenas para cobrir um buraco que só poderia ser preenchido no dia seguinte, Cláudio tomou um dos contatos do dia e foi para a rua.
A sensação que lhe causava a estranheza não deu-lhe trégua. Resolveu até passar em casa só para trocar de camisa, pois viu que a sua estava respingada do café que tomou na empresa. Logo ele que nunca se importou com esse tipo de coisa…
O atendimento que teria que fazer era do outro lado da cidade, o que foi ótimo, pois deu tempo para que pensasse a respeito da vida, aliás, da subvida que levava.
Há dias teve uma conversa com sua mãe que lhe deixou desconcertado.
—    Já está na hora de abrir seu coração, meu filho.
—    Deixe de tolice, mãe! Eu lá tenho tempo para isso? Não vê que tenho mais o que fazer do que me arrumar atrás de algum rabo de saia?
—    Filho, preste atenção. Mesmo que você não queira, vai acontecer. Não adianta fugir!
Após seu último relacionamento, Cláudio decidiu que iria dar um tempo. Se envolveu com umas e outras, mas nada que lhe despertasse interesse genuíno, coisa que mexesse com ele, algo intenso.
Como não tinha ancoragem em porto algum, vivia quase que por acaso. Comia quando dava tempo, não fazia planos para o futuro, não deixava que a vida o corrompesse e o levasse onde haveria motivos para ser feliz.
Se fosse com outro, poderíamos falar que estava na crise dos quarenta, aquela em que todo homem se põe a pensar sobre o que deixará para a posteridade, mas Cláudio mal tinha chegado aos trinta.
Ao chegar no destino notou que estava atrasado, mas não havia o que fazer, o trânsito que lhe servisse de desculpa.
—    Pode dizer ao senhor Genésio que Cláudio Rodrigues chegou, por favor? – disse dirigindo-se à recepcionista.
Após cerca de quinze minutos aguardando recebeu a resposta de que teria que esperar um pouco, pois o responsável estava disponível caso ele tivesse chegado na hora. Como atrasara, acabou entrando em outra reunião.
Quase próximo do almoço a recepcionista resolve ser gentil e lhe oferecer algo.
—    Aceita um chá ou café enquanto aguarda?
—    Aceito sim. Café — e já prevendo o melado que viria, completou — Uma colher de açúcar, por favor.
Mal Cláudio terminou de falar e chegou o café, mas não na xícara como gostaria. Analice, recém contratada, ao tentar lhe servir não percebeu que o chão estava molhado e, desta vez não foram pingos na camisa, mas sim o café inteiro.
Enquanto ela se abaixava para ajudar a limpar a bagunça que fizera, os dois tiveram aquele instante, o momento mágico que faz um encontro de olhares durar uma eternidade e que deixa tudo ao redor com a importância de nada.
—    Como posso me desculpar? — perguntou Analice.
Completamente atordoado, milhares de coisas passaram pela cabeça de Cláudio, inclusive uma fuga para alguma ilha deserta. Mas a única coisa que ele conseguiu pronunciar foi um convite para almoçar. Convite este que foi prontamente aceito!
Ao levantar-se, foi interrompido pela recepcionista.
—    Sr. Cláudio, agora o Sr. Genésio pode lhe atender.
A resposta foi imediata e com muita convicção:
—    Diga que eu já fui e que minha mãe tinha razão.

Naquele momento, ao menos para Cláudio, tudo fez sentido! Corre até hoje o boato de que fora o único sorriso visto no funeral do Joelmir.

Transcrito da pagina "Naquela Mesa":
http://naquelamesa.com/ta-combinado/

Um comentário:

Baldoino Soares Badu disse...

Nesse mundão fantástico cruzamos com pessoas e momentos muito especiais, "Naquele Mesa" é uma pagina que coloquei na minha pagina do Facebook.
Inteligência com muita criatividade foi o que encontre lá.